Por que PF vai investigar repasses de Vorcaro para filme sobre Jair Bolsonaro feitos a pedido de Flávio

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O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de inquérito pela Polícia Federal (PF) para investigar os repasses de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para a produção do filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O dinheiro foi dado pelo banqueiro a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República.

Mendonça havia solicitado um parecer ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, a partir de solicitação da própria PF.

O chefe do Ministério Público Federal avaliou que havia elementos suficientes para justificar a abertura formal do inquérito.

Esse pedido é distinto de outro, feito anteriormente pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), também ao STF.

Lindbergh havia acionado o Supremo depois que o site The Intercept Brasil divulgou um áudio em que Flávio pede dinheiro a Vorcaro para o filme. A PGR se manifestou pelo arquivamento da solicitação do parlamentar.

No fim de junho, o presidente da corte, Edson Fachin, definiu que Mendonça seguiria como relator do caso.

Flávio Bolsonaro não se manifestou até o momento. Anteriormente, ele já havia dito que a solicitação de recursos a Vorcaro foi feita só para o filme e que não haveria qualquer irregularidade.

O que será investigado pela PF

A crise envolvendo o clã Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro teve início no dia 13 de maio, após a divulgação de um áudio em que Flávio Bolsonaro pede apoio financeiro ao dono do Banco Master para o filme sobre o ex-presidente.

De acordo com a reportagem do site The Intercept Brasil, Vorcaro acertou um repasse total de US$ 24 milhões para a obra (cerca de R$ 134 milhões à época). Desse montante, R$ 61 milhões teriam sido efetivamente liberados entre fevereiro e maio de 2025.

Diante de atrasos nos pagamentos restantes, Flávio cobrou Vorcaro por mensagem. Em um dos textos divulgados, Flávio o chama de "irmão" e escreve: "Estou e estarei contigo sempre".

Vorcaro está preso na Papudinha, em Brasília, acusado de comandar fraudes bilionárias no Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em novembro. Ele teve duas propostas de delação premiada rejeitadas pela Polícia Federal e pela PGR.

Flávio admitiu ter negociado com Vorcaro investimentos para custear as gravações, mas negou irregularidades, afirmando que o contato com o banqueiro se restringiu a assuntos do filme.

Segundo ele, o valor efetivamente investido, "100% comprovado", foi pouco superior a US$ 12 milhões — abaixo do orçamento previsto de US$ 24 milhões.

Pelo menos 10,6 milhões de dólares teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025. Segundo o The Intercept Brasil, parte do dinheiro foi transferida pela Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas (EUA).

Em maio, uma nova reportagem do site revelou que o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) atuou como produtor-executivo de Dark Horse, ao lado do também deputado Mario Frias (PL-SP), com poderes contratuais de gestão financeira sobre o projeto — documentos incluem um contrato entre Eduardo e a produtora Go Up Entertainment (sediada nos EUA).

A produtora do filme afirmou que Vorcaro bancou mais de 90% da produção. Karina Ferreira da Gama, sócia da GoUp, afirmou à Globonews que precisou procurar novos investidores após a prisão do banqueiro.

A PF apura se recursos de Vorcaro destinados ao filme teriam custeado despesas de Eduardo nos Estados Unidos, onde ele vive desde fevereiro de 2025, e se também financiaram outras ações de aliados de Jair Bolsonaro junto ao governo Trump.

Ao pedir a investigação no mês passado, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, disse considerar necessário apurar o envio de recursos de Vorcaro aos EUA sob justificativa de financiar o filme.

"Há necessidade de instaurar um inquérito para apurar todas essas circunstâncias que permeiam esses episódios", disse Rodrigues à GloboNews.

O ex-deputado confirmou ter assinado o contrato para a produção do filme anos atrás, mas disse ter usado recursos próprios (provenientes de seu projeto Ação Conservadora) para viabilizar a participação de um diretor de Hollywood, quando o filme "ainda era um sonho".

Segundo ele, deixou a função de diretor-executivo quando surgiram investidores e a estrutura passou a ser feita fora do Brasil, recebendo de volta o dinheiro que havia investido.

Eduardo negou que os repasses para a produção do filme tenham financiado sua vida nos EUA. Segundo ele, seu status migratório no país o impediria de receber dinheiro de fundo de investimento ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro.

Flávio, por sua vez, negou ter oferecido contrapartidas: "Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo".